O mapa que carrego foi desenhado na areia
Pelo vento que sopra de um norte que não existe
Construí uma bússola de espelhos cegos
Procurando o reflexo de um Sol que nunca assiste
Ao próprio nascer
Cada passo é uma nota afinada no silêncio
Cada suspiro, um rascunho de uma geometria sagrada
Que insisto em traçar no escuro
Eu coleciono frações de segundos ideais
Ajustando a luz como se pudesse consertar o tempo
Tento esculpir o mar com mãos de brisa
Querendo a estátua imutável na água em movimento
Minha oficina é feita de vácuo e teimosia
O cinzel é de sonho, a pedra é de fumaça
E a peça final é sempre um labirinto
Onde a saída se apaga assim que a mão passa
Dizem que a linha do horizonte é um convite ao abismo
Eu chamo de tela onde projeto o meu delírio
Se o erro é a única forma de contorno
Eu pintei a minha vida inteira com o traço da discórdia
E ainda assim, meu pincel insiste no traço perfeito
Mesmo sabendo que a tela é um campo de neve
Onde a última pegada sempre desaparece
A perfeição é uma estrela que já morreu há milênios
Mas eu ainda cultivo o brilho que chega aos meus olhos
Não é sobre tocar o cume da montanha de éter
É sobre a resistência da bota contra o cascalho
Eu não busco o ponto final, eu busco a vírgula eterna
Aquele detalhe invisível que falta ao universo
Sou o arquiteto que planeja a casa com paredes de vento
E me orgulho de ser o único inquilino
De um projeto que nunca terminará de ser belo
E quando o dia finda, e a tinta seca na sombra
Eu me desfaço do esboço, apenas para recomeçar
Porque a busca não é a falta do que alcançar
É o exercício de nunca se contentar com o chão
Enquanto houver um milímetro de infinito
Para tentar, mais uma vez, desenhar