O contrato enfim foi selado, está pronto
Não pedem a firma, mas o pulso, o confronto
Compram o resto da tua primavera, em troca
Um rifle de plástico e um horizonte que sufoca
Foste treinado a ser a peça da engrenagem
Que mói a si mesma na vã reportagem
Dizem que o sangue as máquinas lubrifica
É pela economia, a gravata justifica
Enquanto a fome calada vira o estrondo do obus
Preferem o aço que fura à ceifa que conduz
É mais fácil exportar a morte em série
Do que nutrir a carne que eles mesmos repelem
Ah, contempla o teu traje, o uniforme
Alvejado na hipocrisia, em nylon disforme
Prometem o céu em discursos de pódio
Enquanto, na sombra, destilam o ódio
Contam as moedas de cada suspiro teu no front
Nos escritórios, bebendo o vinho que nos põe em monte
Lá, o inimigo não é homem, é só um dado no gráfico
Que chamam de progresso em tom enfático
Te arrastas na lama, sentindo o ferro gélido
Do outro lado, alguém tão descartável e pálido
Só com a bandeira tingida em outro tom de cinza
Chamam de glória o que o abate sintetiza
Dizem que Deus está conosco em cada plano
Esquecendo que Deus, há tempos, deixou o bando
Desviou o olhar de nossos jogos de engano
Da favela à redoma do legislador soberano
O mofo corrói o papel do plano humano
Enquanto a constituição só embrulha o lixo
Que não ocultamos no nosso desapontamento fixo
Cremos na nação como quem crê em assombração
O sangue não para, escorre da tratativa
Desce os mármores da sede administrativa
E mancha o carpete onde o patrão descansa
O epitáfio é simples, sem esperança
Aqui jaz o homem que lutou por um futuro
Vendido antes de nascer, num pacto escuro