Utopia de Esgoto

Valdiner Pereira

Comprei a passagem, mala pronta, casaco de grife no corpo
Achei que ia ver a Europa, mas o cenário tá morto
A propaganda mentiu, o cartão postal derreteu
Caí num buraco na calçada e o meu salto quebrou, já era, perdeu
Grosseria gratuita na esquina, fumaça de cigarro na cara
A atmosfera de romance aqui custa muito caro
Um trombadinha de terno levou minha bolsa num estalo
Tô sem carteira, sem rumo, guiada por esse gargalo

A luz da grande torre brilha lá no infinito
Mas aqui no chão do beco o clima tá esquisito
Alguém me puxa o casaco, o desespero dispara
A lâmina brilha na sombra, a violência não para
Coração vira bateria, o medo assume o controle
Correndo pela calçada antes que o dia termine

Era pra ser um banquete na Cidade Luz
Mas virei refém do caos que esse lugar produz
O café custou os olhos da cara e a paz sumiu
Fui roubada, atacada, o encanto caiu!
Atrás do monumento lindo que todo mundo aplaude
Tem um mar de urina e lixo, essa utopia é uma fraude!
O perfume francês virou cheiro de esgoto
Que pesadelo bizarro, meu sonho tá morto!

Me arrastei até o restaurante com o braço machucado
O garçom me olhou com nojo, um bicho odiado
Me jogou um prato frio, um atendimento hostil
E um queijo que cheira a estrume que ninguém nunca viu
Paguei uma fortuna pra passar por essa humilhação
Limpei o sangue no lenço, sem nenhuma compaixão
Saí de lá com fome, mastigando o vento
Guardando na memória esse terrível momento

Era pra ser um banquete na Cidade Luz
Mas virei refém do caos que esse lugar produz
O café custou os olhos da cara e a paz sumiu
Fui roubada, atacada, o encanto caiu!
Atrás do monumento lindo que todo mundo aplaude
Tem um mar de urina e lixo, essa utopia é uma fraude!
O perfume francês virou cheiro de esgoto
Que pesadelo bizarro, meu sonho tá morto!

Au revoir, pesadelo!


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