A aurora desponta trazendo o sereno
Mas o meu terreiro perdeu o calor
O bule de ferro no fogão de lenha
Testemunha o frio que virou nosso amor
No mourão da porteira o arreio descansa
O burro baio parou de marchar
Até meu chapéu pendurado na cerca
Parece que chora sem te ver voltar
O vento da tarde levanta a poeira
Mas não joga fora a minha paixão
Quem passa na estrada e vê esse chapéu
Não sabe o tamanho da assombração
E o chapéu no mourão tá sofrendo no tempo
Tomando a geada, a chuva e o mormaço
O povo comenta que eu já superei
Mas ele conhece o nó do laço!
Se a sua boiada voltar pra esses rumos
Vai ver o sinal antes de me avistar
Porque o chapéu que finquei na madeira
Prometeu pro mundo nunca te esquecer!
A tranca da estrada bateu com o vento
Achei que era o rumo do seu caminhar
Até o canário no galho do ipê
Cantou bem choroso pra me consolar
Toda essa sesmaria de terra
Guarda os segredos do nosso berrante
Ficou só o peão, a viola e a saudade
Nesse carreador de destino distante
Se o amor aceitasse uma marca de ferro
Eu vinha com o gado pra te segurar
Mas o destino é igual potro xucro
Que o melhor domador não consegue domar
E o chapéu no mourão tá sofrendo no tempo
Tomando a geada, a chuva e o mormaço
Enquanto a invernada apaga os teus passos
Ele guarda o calor do teu último abraço!
Se o berrante ecoar nessa curva da estrada
Não precisa o meu nome no peito gritar
Repara o chapéu que secou na porteira
Que a minha viola ainda vai te esperar!
Repara o chapéu que secou na porteira
Que a minha viola ainda vai te esperar