Eu vi o inferno de perto
Mas não ajoelhei
Chamaram isso de castigo
Eu chamei de caminho
Se Deus fechou as portas
Eu derrubo os muros
Eu cheguei na terra sem rei, sem juiz, sem bandeira
Onde a culpa vale ouro e a mentira é verdadeira
Onde os anjos perderam nome
E os demônios perderam face
Onde o ódio faz morada
E a esperança não renasce
Mas eu vim
Não por glória
Não por poder
Nem pelo trono que prometeram me oferecer
Desci porque existe um rosto
Que eu me recuso esquecer
Meu reflexo me dizia
Você nasceu pra governar
Mil vozes me chamavam
Pra sentar e me coroar
Mas vi reis virarem cinza
Vi impérios afundarem
Quem se ajoelha pro próprio ego
Já começou a desmoronar
Quebrei a coroa
Pisei no ouro
Abandonei o altar
Porque quem domina o mundo inteiro
Mas não domina a si mesmo
Não aprendeu a reinar
Purgatório
Terra sem leis
Onde monstros viram homens
E homens viram reis
Eu sangrei cada pecado
Mas não me curvei
Se o inferno quer meu nome
Vai ter que arrancar de vez
Vi montanhas de tesouros
Rios feitos de diamante
Vi homens vendendo almas
Por segundos arrogantes
O brilho quase me cegou
Eu admito, vacilei
Mas ouro não compra o tempo
Que das minhas mãos deixei
Então larguei cada corrente
Cada moeda, cada bem
Porque quem possui tudo
E ainda sente fome
Não possui ninguém
Ela veio como febre
Como fogo sob a pele
Promessas nos lábios
Veneno escorrendo dele
Quase esqueci teu sorriso
Quase esqueci quem eu sou
Mas paixão sem propósito
É só uma prisão de amor
Então atravessei o desejo
Feito espada atravessando o peito
Porque eu não desci tão fundo
Pra morrer tão perto do teu beijo
Vi guerreiros mais fortes
Vi lendas maiores que eu
Vi homens que receberam
Tudo aquilo que o destino me negou
Por um segundo pensei
Por que não fui eu?
Depois percebi
A estrada deles não carrega
O peso que a minha carregou
Então matei a inveja
Porque comparar cicatrizes
É esquecer quem sobreviveu
Purgatório
Terra sem leis
Onde monstros viram homens
E homens viram reis
Cada passo é uma guerra
Cada guerra uma vez
Mas eu continuo andando
Mesmo quando nada vê
A fome aqui não é de carne
É de vazio
Quanto mais você consome
Mais profundo fica o frio
Vi criaturas devorando céus
Engolindo oceanos inteiros
Mesmo assim continuavam
Morrendo por dentro primeiro
Então aprendi
Nem todo buraco se preenche
Nem toda falta se corrige
Algumas dores existem
Pra lembrar quem te dirige
Aqui eu encontrei Kratos
Correntes queimando os braços
Fantasmas puxando seus passos
E vi a mim mesmo
Raiva suficiente
Pra incendiar continentes
Ódio suficiente
Pra matar até inocentes
Mas a ira é uma lâmina dupla
Quando corta o inimigo
Também corta quem segura
Então transformei minha fúria
Num motor e não numa sepultura
A última porta não tinha monstros
Não tinha fogo
Não tinha tortura
Só uma voz dizendo
Descanse
Pare
Desista
A pior armadilha do mundo
Vestida de ternura
E eu quase fiquei
Quase aceitei
Quase dormi
Mas lembrei dela
Da razão que me fez cair
Como Dante atravessou o inferno
Por quem jurou seguir
Eu levantei
Mesmo quebrado
Mesmo morto por dentro
Mesmo sem forças
Eu levantei
Agora as correntes estão no chão
A coroa virou poeira
O ouro perdeu valor
A carne perdeu a guerra
A inveja ficou pra trás
A fome morreu vazio
A ira virou combustível
E a preguiça perdeu o dia
Então escuta
Eu não sou herói
Nunca fui
Carrego sangue demais
Pra fingir pureza
Mas atravessei cada pecado
Sem perder minha essência
E quando cheguei ao fim
Do purgatório sem lei
O inferno abriu os olhos
Porque percebeu tarde demais
Não era eu que estava preso nele
Era ele que estava preso em mim