Vida, essa senhora cansada
Que acorda e não diz nada
Que passa por mim na calçada
E ri do meu passo lento
Eu que fui jovem e valente
Jurei domar o tempo
Mas hoje conto nos dedos
As horas que me sustentam
Busquei consolo no corpo
No gozo breve e barato
Amor, só um retrato
Que pendurei no meu quarto
E vieram um outro e mais outro
Que deixaram perfume, sombra
E a solidão que desponta
Quando o lençol se desmonta
Outro, mais outro e mais outro
E depois, só o vazio na alma
Coração que desaprova
E o prazer que me sufoca
Às vezes penso que é sina
Ou castigo divinal
Buscar em carne divina
O que é sede espiritual
Mas a alma é tão miúda
E a volúpia é tão voraz
Que me lanço nessa ajuda
Que me sacia e nada mais
Sou a mesma a cada dia
Me afogo em amizades
Pra calar essa agonia
De cantar o amor por guia
Que nos beija e desafia
Amor, mais outro e mais outro
E depois, o corpo se solta
Coração vira anedota
E a paixão toma nota
Sacia o corpo sacia
Morre como nascia
Do nada, simplesmente do nada