Habitantes do Ventrículo Esquerdo e o Manjar Diminuto Em Banquete Gelado

Michel F.M.

Como poeta era um ótimo filósofo
E como filósofo um ótimo poeta
Isso significa dizer que nunca foi bom
Em nenhuma das duas coisas

Mas a questão nunca foi ser bom
Em alguma coisa, a única questão
Que realmente importava, era ser

Somente um rimante inescrupuloso
Pode especular estrofes
Sem receio de cair em prosa

Um artífice premeditado da palavra
Ou pós-ditado, aquele que diz
Eis o ditador, um versenário
Vil a cada oração

Um expoeta que despétala, em camuflagem
Sorrateira, até ser lido e desferir o bote, certeiro
Inflamado, fatal, injetando antídoto

Um mero ente, alterado
Que em algum súbito relance, havia tido o todo

Então ele constata
Um milhão e meio de razões para ir
Talvez uma ou meia motivações pra ficar

Só tenho uma coisa a perder, a inspiração
E se eu permanecer, ela se vai. Portanto
Me vou, para que ela fique

Espero um dia conseguir suportar a mim
E quem sabe muito esperançoso
Conviver comigo mesmo

Não precisa ser esplêndido, mas às vezes é
Não precisa ser formidável e magnífico, às vezes é

Nossa ecolocalização capta
Os cardumes fartos em espiral
E o esquadrãovagalume
Inda pulsa estridente

Ela era do tipo persistente insistente
Não deixaria que nada a deixasse esfriar
Ela era tipo encrenqueira valente
Ficaria com tudo ou nada iria bastar


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