República Federativa das Bananas Brasileiras

Astrikos Katoikos

Abram de novo os porões
Lavem as paredes da prisão
Tem gente pedindo passado
Com a urna na palma da mão

Guardem os livros na caixa
Desmontem o laboratório
O charlatão ganhou púlpito
O fato virou acessório

Preparem a fila dos ossos
A fome conhece o endereço
Miséria nunca sai de moda
Se alguém lucra com seu preço

Procurem carne no descarte
Catem gordura no chão
Depois agradeçam à pátria
Por mais uma humilhação

O Brasil desenterrou
Sua antiga servidão
Deu futuro ao que matou
Deu mandato à regressão

Fez do algoz autoridade
Do martírio, tradição
E chamou de liberdade
Sua própria submissão

A ciência será interrogada
Por quem se recusa a aprender
Toda vacina vira suspeita
E a mentira ganha poder

Professor será subversivo
Se ensinar alguém a pensar
Universidade será luxo
Reservado a quem pagar

A floresta terá escritura
O garimpo terá proteção
A aldeia recebe invasores
Com respaldo da instituição

O rio receberá mercúrio
O agro receberá fuzil
Depois alguém beija a bandeira
E diz que salvou o Brasil

O Brasil desenterrou
Sua antiga servidão
Deu futuro ao que matou
Deu mandato à regressão

Fez do algoz autoridade
Do martírio, tradição
E chamou de liberdade
Sua própria submissão

Senadores fazem a conta
Das cadeiras do tribunal
Querem juízes convenientes
E obediência institucional

Toda lei se torna estorvo
Se contrariar a ambição
Democracia só lhes serve
Se aceitar submissão

E o pobre que cate latinha
Que dispute restos no jantar
Enquanto a Bolsa comemora
Quanto ainda pode lucrar

O banqueiro pede reforma
O patrão reclama proteção
Quem depende do salário
Recebe sermão e contenção

Vendem o país aos pedaços
Chamando entrega de gestão
Os States recebem continência
Por aqui se recebe exploração

A velha colônia se orgulha
De servir ao dólar imperial
Troca o país por migalhas
Num banquete colonial

Sessenta e quatro não está morto
Perguntem a quem o invocou
Perguntem aos torturados
Sobre o regime que se adotou

Perguntem pelas famílias
Que não puderam enterrar
Aqueles que o Estado levou
E se recusou a entregar

General ganha retrato
Carrasco recebe louvor
A vítima vira suspeita
E o algoz, homem de valor

Depois perguntam sorrindo
Como chegamos até aqui
Como se a história brasileira
Não soubesse muito bem se repetir

O Brasil tem pela frente
A reminiscência do que já viveu
Quem perdoa seus carrascos
Entende que nenhum horror aconteceu

Tanta cova, tanto cárcere
Tanta gente sem voltar
E o país quer pro futuro
O que devia sepultar

O passado não bate à porta
Já conhece a habitação
Sabe onde guardam as chaves
E quem lhe oferece a condução

Chamam retrocesso de avanço
Servidão de tradição
E entregam aos velhos fascistas
O amanhã de uma nação


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