Os Cruzados

Astrikos Katoikos

Pregaram a cruz sobre guarda-peitos e cotas
Chamando glória o rumo da invasão
Por trás dos hinos e das velas rotas
Rangia surda a velha ambição

Partiam hostes sob o sino dominical
Com salmos postos sobre a multidão
Mas sob o ouro do discurso clerical
Já se escondia outra intenção

Jerusalém surgia no horizonte
Qual joia brilhante sobre a imensidão
E cada chefe, ao falar do santo monte
Sonhava posse, poder e posição

O povo miúdo, curvado à penúria
Seguia a turba por medo ou ilusão
Enquanto príncipes, em fria astúcia
Medíam roteiros de circulação

A cruz sobre o peito com promessa e temor
Homens partindo sem saber quem são
Entre a esperança e a fome interior
Misturam paraíso com grande destruição
Tradição e relíquia disputam o benefício
O Sangue responde ao que foi dito por ambição
Séculos guardam sem dar veredito
Se foi devoção ou sede de dominação

Crianças, viúvas, velhos sem abrigo
Viravam cifra de contabilização
E o que era prece, sob pulso inimigo
Tomava a forma de aniquilação

Nos claustros houve quem visse o desvio
Entre evangelho e Assolação
Mas o temor, mais espesso que o brio
Selou fundo neles a contestação

Tomaram muros, repartiram casas
Cobriram pátios de fuligem e óleos
E a dita fé, com as suas asas rasas
Serviu de máscara aos espólios

Séculos passam, persistem feridas
Nos pergaminhos da recordação
Pois toda guerra que se diz ungida
Costuma ocultar rapina e traição

A cruz sobre o peito com promessa e temor
Homens partindo sem saber quem são
Entre a esperança e a fome interior
Misturam paraíso com grande destruição
Tradição e relíquia disputam o benefício
O sangue responde ao que foi dito por ambição
Séculos guardam sem dar veredito
Se foi devoção ou sede de dominação

Quem veste o eterno para ter licença
De abrir sepulcros pela vastidão
Já trocou a alma da sua crença
Pelo domínio e pela exaltação

E assim, marcham os homens, cruzados
Sob estandartes impiedosos rumo a Sião
Cantam salmos com lábios cansados
E ocultam o verdadeiro ímpeto de devastação

A cruz sobre o peito com promessa e temor
Homens partindo sem saber quem são
Entre a esperança e a fome interior
Misturam paraíso com grande destruição
Tradição e relíquia disputam o benefício
O Sangue responde ao que foi dito por ambição
Séculos guardam sem dar veredito
Se foi devoção ou sede de dominação

Se a fé é pura, por que precisa de armadura?
Se a fé é pura, por que precisa de armadura?
Se a fé é pura, por que precisa de armadura?
Se a fé é pura, por que precisa de armadura?

A cruz sobre o peito com promessa e temor
Homens partindo sem saber quem são
Entre a esperança e a fome interior
Misturam paraíso com grande destruição
Tradição e relíquia disputam o benefício
O Sangue responde ao que foi dito por ambição
Séculos guardam sem dar veredito
Se foi devoção ou sede de dominação


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