O morro desce em cascata de telha e tijolo
Na pele da terra, um corte, um consolo
A vida pendurada no varal do abismo
Onde o Sol se deita sem nenhum cinismo
O esgoto que corre e desenha a calçada
E a moça arrumada que vai pra noitada
Bordando o destino na sola do pé
O Rio é castigo, o morro é a fé
Ah, minha gente, que a história esculpe
Se lá na praia tem medo, no morro, desculpe
O céu lá de baixo é o mesmo de cá
Mas no morro o sereno tem mais que chorar
A Lua é um brinco na orelha da madrugada
As estrelas descansam de cada porrada
O barraco suplíca à Nossa Senhora da Esperança
No meio do fogo cruzado baila a criança
E a bala perdida que busca um peito
Não se importa com ninguém, não quer ter direito
Uma caixa de som relembra um samba antigo
Que fala de amor, que esquece o perigo
A dona de casa que acende vela pro santo
Limpa a poeira e enxuga o seu canto
Onde a miséria espreita a janela
A poesia renasce da favela
É um labirinto de becos e tramas
Lugar do operário que esquece os seus dramas
Mistura o suor com a água da chuva
A mão calejada não carece de luva
O morro é um palácio de corda e de vento
Que guarda o segredo do sofrimento
E quando a cidade maravilhosa acende a sua luz
O morro apaga o peso da cruz
Ah, minha gente, que a história esculpe
Se lá na praia tem medo, no morro, desculpe
O céu lá de baixo é o mesmo de cá
Mas no morro o sereno tem mais que chorar
A Lua é um brinco na orelha da madrugada
As estrelas descansam de cada porrada
E o Rio assiste, calado e covarde
A beleza que queima na boca da tarde
O morro é poesia que a duros espinhos resiste
O quadro mais lindo e o samba mais triste
Ah, minha gente, que a história esculpe
Se lá na praia tem medo, no morro, desculpe
O céu lá de baixo é o mesmo de cá
Mas no morro o sereno tem mais que chorar
A Lua é um brinco na orelha da madrugada
As estrelas descansam de cada porrada