O Gato do Cais

Astrikos Katoikos

Quando a maré recua no cais adormecido
Surge um gato malandro, de bigode retorcido
Surrupia um peixe graúdo da caixa do pescador
E desaparece na névoa, sem pagar ao vendedor

Na venda, a dona guarda a ração no armazém
Mas o gatuno conhece cada fresta muito bem
Derruba um saco, abre a boca, faz sumir o mantimento
E deixa o cão de vigia latindo contra o vento

É o Gato do Cais, senhor da madrugada
Com a cauda erguida e a presa abocanhada
O porto inteiro conhece sua fama
Mas ninguém lhe fecha a porta ou lhe nega uma cama

É o Gato do Cais, mestre da evasão
Faz do mercado a sua provisão
Se alguém protesta, ele ignora o sermão
Salta sobre os telhados e some na escuridão

Já lhe armaram mil ciladas, já fecharam cada vão
Já deixaram peixe falso bem em cima do balcão
Mas o gato lê as pistas com sagaz inteligência
Dá a volta pela telha e zomba de tanta prudência

O marinheiro reclama, o vendedor faz sermão
Mas o bicho, de passagem, roça a perna do patrão
Quem prepara a arapuca perde logo a valentia
Pois o gatuno se espreguiça com insolente simpatia

É o Gato do Cais, senhor da madrugada
Com a cauda erguida e a presa abocanhada
O porto inteiro conhece sua fama
Mas ninguém lhe fecha a porta ou lhe nega uma cama

É o Gato do Cais, mestre da evasão
Faz do mercado a sua provisão
Se alguém protesta, ele ignora o sermão
Salta sobre os telhados e some na escuridão

O pescador jura vingança, o vendedor quer justiça
Mas o gato surge mancando, com uma falsa carícia
Uma criança lhe oferece um pedaço de sardinha
E o ladrão aceita o mimo e, ronronando, cura a patinha

O cão fareja o delito, mas se esquece da missão
Quando o gato lhe concede um pedacinho de salmão
Até o velho capitão, que jurou capturá-lo um dia
Põe leite numa tigela e sorri de alegria

Certa noite, uma tempestade desabou furiosa
E o gato, sob as redes, já não correu em polvorosa
O pescador o recolheu, deu-lhe abrigo e calor
E o vendeiro abriu uma lata, sem cobrar pelo favor

O gatuno tem roubado menos, ou disfarça com mais arte
Pois conhece cada porta, cada telha, cada parte
E ninguém sabe ao certo, quando o vê sumir ligeiro
Se é o maior dos criminosos ou o mascote do estaleiro

É o Gato do Cais, senhor da madrugada
Com a cauda erguida e a presa abocanhada
O porto inteiro conhece sua fama
Mas ninguém lhe fecha a porta ou lhe nega uma cama

É o Gato do Cais, astuto ladrão
Ninguém o captura, é o dono da situação
Conquistou o mercado, ganhou proteção
E reina no porto sem pedir absolvição

É o Gato do Cais!
O terror dos vendavais!


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