No Deserto com João Batista

Astrikos Katoikos

Eu seguia João pelas ravinas
Sob penhascos de calcário e abrasão
Seu manto era tecido de asperezas
Seu olhar transparecia compreensão

Não buscava palácios nem mercados
Nem desejava fama ou distinção
Vivia junto aos cardos ressequidos
Como alguém que abandonou a multidão

Comia gafanhotos recolhidos
Nas fendas arriscadas do Jordão
E o mel das colméias escondidas
Era todo o seu festim e provisão

Muitos vinham escutar suas palavras
Magistrados, soldados, lavradores
Mas João falava igual para todos
Sem curvar-se aos poderosos ou doutores

Quem é capaz de morar no deserto?
Quem suporta tamanho despovoar?
Eu seguia João sem entendê-lo
E entendendo deixava de pensar

Às vezes eu olhava suas pegadas
Sobre a areia sem fim da solidão
E pensava que aquele homem severo
Era mais vasto que a própria região

Ele falava do machado junto à árvore
Da colheita futura e do lagar
Como quem já observava outra paisagem
Que meus olhos jamais puderam divisar

Certa tarde desceram peregrinos
Vindos das aldeias junto ao mar
E Batista permaneceu igual à pedra
Que nenhuma ventania faz mudar

Havia algo terrível em sua calma
Algo tão antigo quanto a criação
Como se cada frase carregasse
O peso oculto da consumação

Quem é capaz de morar no deserto?
Quem suporta tamanho despovoar?
Eu seguia João sem entendê-lo
E entendendo deixava de pensar

Então surgiu aquele galileu
Que João fitou sem nada se explicarem
E naquele instante tive a impressão
De ver dois infinitos a se cruzarem

João seguiu menor aos olhos do mundo
Feito estrela cedendo o próprio lugar
E eu vi que existe uma grandeza
Que floresce ao aprender a recuar

Depois vieram grades e sentenças
Salões dourados, vinho e corrupção
E a voz que estremecia os descampados
Foi julgada por capricho e ambição

Mas recordo suas noites junto ao ermo
O cinturão de couro, a refeição singela
E a estranha liberdade que possuía
E realmente nada tinha além dela

Hoje caminho velho pelas margens
Onde o Jordão continua a deslizar
E ainda procuro compreender o enigma
Que vi tantos anos habitar

Pois Batista jamais buscou felicidade
Riqueza, segurança ou aprovação
Parecia investigar o próprio vazio
Oculto no centro de cada coração

Quem é capaz de morar no deserto?
Quem suporta tamanho despovoar?
Eu segui João por muitas estações
E ainda sigo sem saber chegar

As cidades prometem permanência
Os impérios juram sempre perdurar
Mas a voz que ouvi nas pedras áridas
Continua muito além de terminar


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