Nas funduras do mercado velho
Junto aos caixotes de melão
Havia um menino de casaca curta
Que ria do mundo sem precisar de razão
Deixava sujo de giz os assentos
Trocava as placas do armazém
Fazia padre perder os paramentos
E o dono da quitanda esquecer de cobrar alguém
Não se sabia seu sobrenome
Nem a rua de onde surgiu
Só se sabia que a monotonia
Fugiu no instante que ele sorriu
Ê Exu Mirim (é sim!)
Moleque sabido do desacerto
Quando arruma uma confusão
Sempre revela um segredo
Ê Exu Mirim (é sim!)
Menino de muita inteligência
Vira o mundo pelo avesso
Só pra mostrar que tudo é só aparência
Entrou na residência de Seu Anselmo
Numa manhã de calor arretado
Misturou contas, trocou cadernos
Fez reboliço e deixou todo mundo irritado
O açúcar foi pra cama
O querosene prô quintal
E uma encomenda de porcelana
Foi terminar escondida atrás do jornal
Passaram dias procurando
A causa daquela alteração
Até notarem que suas vidas
Já eram pura complicação
Ê Exu Mirim (é sim!)
Moleque sabido do desacerto
Quando arruma uma confusão
Sempre revela um segredo
Ê Exu Mirim (é sim!)
Menino de muita inteligência
Vira o mundo pelo avesso
Só pra mostrar que tudo é só aparência
Sentou-se diante de um doutor
Famoso pelo grande conhecimento
Perguntou qual era o peso
De um antigo aborrecimento
O homem abriu tratados grossos
Consultou mapas e latim
Enquanto o pequeno assoviava
Encostado numa árvore no jardim
Ao cair da tarde respondeu
Não encontrei explicação
Mirim apenas deu risada
E mostrou que a vida é mais do que erudição
Ê Exu Mirim (é sim!)
Menino das gargalhadas
Que desmonta as certezas velhas
Das cabeças empedradas
Ê Exu Mirim (é sim)
Arteiro das encruzilhadas
Faz tropeçar a presunção
E liberta as ideias cansadas
Ê Mirim, ê Mirim
Dono das brincadeiras sagradas
Ê Mirim, ê Mirim
Bagunceiro de todas Encruzilhadas