Na carnadura da existência transitória
A consciência questiona a própria condição
Desfaz-se a antiga fábula da história
Perante a lucidez da percepção
A memória perpetua antigos temores
E atribui ao passado autoridade
O desejo multiplica seus ardores
Submetendo o pensamento à dualidade
Na vacuidade de toda manifestação
Desvanece a pretensão de permanência
O ser contempla a própria ilusão
Sem desejar qualquer transcendência
Eterna consciência, límpida presença
Anterior à forma e à definição
Nenhuma crença encerra sua essência
Não há ideia que alcance a sua dimensão
A mente, afeita à própria soberania
Confunde a representação com o real
Concebe uma ilusória autonomia
E faz da identidade seu ideal
Nenhuma disciplina ou penitência
Produz a natureza original
A liberdade desconhece precedência
Pois jamais pertenceu ao temporal
A lucidez dispensa a recompensa
Desconhecendo mérito ou aquisição
A consciência, isenta de pertença
Não reivindica alguma conclusão
Eterna consciência, límpida presença
Anterior à forma e à definição
Nenhuma crença encerra sua essência
Não há ideia que alcance a sua dimensão
O sofrimento encontra sua origem
Na resistência à própria mutação
As identidades sucessivas se dirigem
À dissolução de sua pretensão
O pensamento inventa a eternidade
E imagina conquistá-la pelo saber
Entretanto, a indizível realidade
Não necessita de alguém para acontecer
Cessada a compulsão de permanência
Desfaz-se a fantasia de separação
O despertar dispensa a transcendência
Pois nunca houve distância da percepção
Eterna consciência, límpida presença
Anterior à forma e à definição
Nenhuma crença encerra sua essência
Não há ideia que alcance a sua dimensão
Ó consciência, indelével presença
Sem nascimento, término ou condição
Nenhuma doutrina constitui sua essência
Nenhuma forma determina sua expressão
O Absoluto desconhece a conquista
A liberdade prescinde de ascensão
Quando desaparece aquele que resista
Permanece o indizível da percepção