Ó consciência sem abrigo
Que a si mesma há de julgar
Ser é fardo, ser é enigma
Ser é ter de se criar
Ó consciência sem abrigo
Que a si mesma há de julgar
Ser é fardo, ser é enigma
Ser é ter de se criar
No âmago da névoa a mente se interroga
Sem credo, sem guarida, sem perdão
Um ser se ergue e cria sua morada
Na carne incerta e na contradição
Tudo é contingente, efêmero, disperso
O espírito se dissolve em combustão
A liberdade é lâmina sem verso
Que fere o próprio coração
Nenhuma essência antecede o gesto
Nenhum destino ordena o caminhar
Sou quem inventa o próprio manifesto
No labirinto em que escolhi ficar
O mundo é náusea, substância informe
Que se oferece ao olhar sem intenção
Ser é sentir o absurdo que se conforma
É ser presença sem explicação
Ó consciência sem abrigo
Que a si mesma há de julgar
Ser é fardo, ser é enigma
Ser é ter de se criar
O outro me faz objeto, imagem morta
Me nomeia sem me alcançar
Sou coisa viva e já distorcida
Sou liberdade a se negar
A angústia é chama que não se apaga
É perceber o vazio respirar
Tudo o que toco vira miragem
Tudo o que penso quer cessar
Mas mesmo em meio à absurda esfera
A escolha é lei, é regra, é ar
Cada renúncia me reitera
Cada desejo é condenação a sangrar
Ó consciência sem abrigo
Que a si mesma há de julgar
Ser é fardo, ser é enigma
Ser é ter de se criar
A má-fé nasce em ato brando
Quando o ser finge não saber
A liberdade é dor constante
Por não poder se esconder
No fim, o tempo, esse carcereiro
Ri da ilusão de perdurar
E o ser, cansado de si mesmo
Descansa apenas por cessar
Mas há no nada uma centelha
Um clarão que insiste em vibrar
É o ser, febril, que se revela
Ao perceber-se a se pensar
Ó consciência sem abrigo
Que a si mesma há de julgar
Ser é fardo, ser é enigma
Ser é ter de se criar
Ó consciência sem abrigo
Tua própria essência é teu altar
Cria o mundo e nele afunda
Livre, lúcida, a se inventar