Catábase

Astrikos Katoikos

Senhor Exu Capa Preta desceu pela arcada
Onde a pedra suava fuligem encarniçada
Debaixo de uma abóbada negra, convulsa, sideral
Um sino de estanho tangia como funeral

No primeiro fosso, sob a cúpula nefasta
A multidão dos réus rodava, lívida e vasta
Cada fronte trazia o ferrete da sentença
Cada nome jazia sob o peso da penitência

Mais fundo, o basalto destilava escarlate
E o enxofre subia num vapor de combate
Harpias desciam sobre os olhos dos réus
Enquanto os brados feriam até os próprios céus

Exu passou por um pórtico antigo, de basalto fendido
E logo a seguir por um mármore milenar, carcomido
No umbral, um guardião de semblante severo
Erguia uma chave feita de osso e ferro

Procuro uma alma chamada Solveig, falou ao carcereiro
Ele abriu um sorriso de cínico açougueiro
Milhões nesta furna suplicam clemência
Cada súplica aviva o rigor da sentença

No Estige purpúreo, de corrente espumante
Uma barca sem remos avançava, vacilante
O barqueiro, de manto sombrio e carmim
Fitou o Senhor Capa Preta e apontou para o fim

No fundo das águas, sob sete correntes
Jazia uma sombra cercada de serpentes
Seu nome, lavrado na pedra funerária
Guardava uma sentença de memória milenária

Exu tomou o grilhão, negro, consagrado
E o metal cedeu sob o pulso levantado
O abismo rugiu, a montanha estremeceu
E um coro de Fúrias atrás dele gemeu

Subiu por galerias de âmbar e imenso granito
Sob gases ácidos, num ar totalmente maldito
Cada degrau deixava nos ossos suas marcas
Cada portão rangia como uma a boca cravada de farpas

Atrás, o inferno cerrava as mandíbulas
À frente, a noite erguia suas fúnebres penínsulas
Ninguém ousava voltar-se à garganta escancarada
Onde a treva o seguia, feroz e desvairada

Quando a manhã surgiu na serra distante
Solveig resgatada abriu os olhos, exausta, vacilante
Nenhuma trombeta rompeu a vastidão do céu
Nenhuma voz celeste desatou seu véu

Exu junto à senda, calado, permaneceu
Enquanto a luz nas pedras lentamente cresceu
Há resgates que nenhum altar jamais proclama
Uma alma sai do inferno ainda marcada pela chama


All lyrics are property and copyright of their owners. All lyrics provided for educational purposes only.