A Servidão Voluntária

Astrikos Katoikos

Da janela do barraco vê a cidade reluzir
Da janela do barraco vê a cidade reluzir
Defende os donos da riqueza que jamais poderá possuir

Conhece a lei do trabalho pelo preço da demissão
Conhece a lei do trabalho pelo preço da demissão
Mas chama de liberdade a vontade do patrão

O candidato fala em mérito, esforço e ascensão
O candidato fala em mérito, esforço e ascensão
Nasceu rico, nunca passou necessidade, mas dá lições de superação

Meu Deus, que amarga ironia
Defender quem lhe nega o direito!
O homem celebra a tirania
Que lhe pesa sobre o peito
E ainda chama de democracia
A servidão que aceitou satisfeito

Já sente o peso dos anos, quer descanso e dignidade
Já sente o peso dos anos, quer descanso e dignidade
Aplaude quem lhe adia o direito à tranquilidade

Quando a polícia sobe o morro, ele pede severidade
Quando a polícia sobe o morro, ele pede severidade
Seu filho conhece cedo o cassetete dessa autoridade

O deputado fala em Deus, condena a corrupção
O deputado fala em Deus, condena a corrupção
Mas negocia seus favores na sombra da repartição

Meu Deus, que amarga ironia
Defender quem lhe nega o direito!
O homem celebra a tirania
Que lhe pesa sobre o peito
E ainda chama de democracia
A servidão que aceitou satisfeito

Condena o pobre que recebe algum auxílio do governo
Condena o pobre que recebe algum auxílio do governo
Mas aceita o privilégio parlamentar como um direito eterno

Diz que a greve é uma afronta, que protesto é rebeldia
Diz que a greve é uma afronta, que protesto é rebeldia
Quando o salário não acompanha o mês, lamenta a carestia

O político lhe oferece um inimigo para odiar
O político lhe oferece um inimigo para odiar
E, enquanto ele acusa o vizinho, outros podem prosperar

Chega outubro, vem a urna, outra promessa de redenção
Chega outubro, vem a urna, outra promessa de redenção
E o homem entrega ao seu carcereiro a chave da própria prisão

Meu Deus, que amarga ironia
Defender quem lhe nega o direito!
O homem celebra a tirania
Que lhe pesa sobre o peito
E ainda chama de democracia
A servidão que aceitou satisfeito

Ah, meu Brasil brasileiro, meu Brasil brasileiro
Terra de samba e de pandeiro, de escândalos e roubalheira de dinheiro
Onde o político te ilude e mente o tempo inteiro


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