Nasci sem consentir na existência
Herdeiro involuntário de um final
A infância ignorava a decadência
A idade revelou seu tribunal
O nascimento inaugura a sentença
O tempo exerce sua jurisdição
A consciência indaga sua presença
Sem descobrir a causa da prisão
A esperança administra seus venenos
Promete eternidades ao presente
Seus consolos tornam-se pequenos
Quando a razão interroga o que se sente
O desespero possui certa nobreza
Recusa os privilégios da ilusão
Na intimidade amarga da tristeza
Dispensa as promessas de perdão
Ó lucidez dos condenados
Que desventura é perceber
Que os dias nunca foram dados
Para justificar o ser
Os dogmas morrem, derrotados
Ao enfrentar a própria razão
Até os deuses consagrados
Sucumbem à interrogação
A insônia transforma a noite em julgamento
Sem testemunhas, júri ou absolvição
Cada segundo prolonga o sofrimento
De estar sujeito à própria duração
A madrugada nega qualquer trégua
O pensamento insiste em prosseguir
A consciência, exausta, não sossega
Condenada a saber que vai partir
A história multiplica suas promessas
Recruta os inocentes para a dor
Multidões caminham sempre às pressas
Cada esperança escolhe um opressor
O progresso aperfeiçoa seus instrumentos
Mas desconhece a cura da aflição
Multiplica conquistas e tormentos
E chama de vitória a destruição
Ó lucidez dos condenados
Que desventura é perceber
Que os dias nunca foram dados
Para justificar o ser
Os dogmas morrem, derrotados
Ao enfrentar a própria razão
Até os deuses consagrados
Sucumbem à interrogação
A morte habita o pensamento
Sem reclamar sua execução
Saber que existe algum momento
Para partir abranda a aflição
A vida prossegue, contraditória
Sem exigir qualquer explicação
E a liberdade, tão provisória
Permanece na indecisão
A beleza desconhece a eternidade
Mas torna a vida digna de atenção
Por um instante, a própria adversidade
Renuncia à exigência de explicação
Nenhuma tese me concede uma saída
Nenhuma eternidade me seduz
A dúvida acompanha a própria vida
Desconfia até da promessa de luz
A consciência assiste à própria desgraça
Sem desejar o prêmio de vencer
Quando a certeza enfim se despedaça
Ainda lhe resta a ironia de escrever
Ó lucidez dos condenados
Que desventura é perceber
Que os dias nunca foram dados
Para justificar o ser
Os dogmas morrem, derrotados
Ao enfrentar a própria razão
Até os deuses consagrados
Sucumbem à interrogação
Ó lucidez, amarga companheira
Sem recompensa ou redenção
A morte encerra a vida passageira
Sem responder à sua indagação