Na cerveja importada de uma tarde extinta
Um cisne que jamais nasceu deixou sua pluma
Ninguém soube dizer de qual ausência vinha
A brancura impossível que habitava a espuma
Lá fora a água, inconsolável por não ter memória
Guardava a perfeição de um movimento alheio
E o lago, sem saber que participava da história
Acolhia uma ave que jamais lhe veio
Na mesa um livro permanecia aberto numa página vazia
Onde a tinta recusara a condição de escritura
A palavra, fatigada de significar tudo que existia
Preferiu a pureza à própria literatura
Eis que uma mulher, vestida de esquecimento
Recolheu aquela pluma inexistente jogada ao chão
Sentiu-lhe o peso absurdo, a resistência ao vento
E compreendeu que a falta também possui extensão
Na casa, uma ampulheta esvaziada consentia
Que o futuro envelhecesse antes de acontecer
Cada hora recusada era uma ave que partia
De um céu que desconhecia o verbo desaparecer
A mulher depositou a pluma numa taça vazia
E o cristal adquiriu uma súbita gravidade
Aquilo que jamais existira agora exigia
Um lugar na matéria e outro na eternidade
Quando a manhã chegou, nada havia acontecido
A taça permanecia onde sempre estivera
Mas o mundo, de alguma forma, havia perdido
A inocência de acreditar naquilo que era
E na página branca, sem tinta ou assinatura
Uma ave continuava sua impossível viagem
Nenhuma palavra alcançaria sua figura
Pois a ausência recusava ser linguagem