Chegue agora, vou lhe contar
A balada de um duro penar
Nascido na seca e na violência
Que contamina toda existência
Cabra valente por necessidade
Fez da dor sua realidade
Era agreste, era espinho e chão
Seco de lágrimas e de pão
Um valente chamado severino
Portador de coração adamantino
Luz de brilho forjado na dor
Que traz lágrimas ao cantor
O mais velho entre os irmãos
Levava o mundo nas próprias mãos
O peso duro da sobrevivência
Protegendo a infância da carência
Poço cavado entre pedra e sal
Com um toco de pau, sem igual
Por um fio de água barrenta
Que sustentava a vida sedenta
Um valente chamado severino
Portador de coração adamantino
Luz de brilho forjado na dor
Que traz lágrimas ao cantor
Mil passos tinha de caminhar
Sob um Sol que queria matar
Esperança era rara criança
Dor era a única lembrança
Onde a água era tesouro cristalino
Nascia o ladrão cruel e assassino
Poço cercado por pedra e espinho
Negando a sede do pobrezinho
Um valente chamado severino
Portador de coração adamantino
Luz de brilho forjado na dor
Que traz lágrimas ao cantor
Então o valente, já atormentado
Entrou em peleja com o invasor armado
O agressor tombou para a cova
E a violência nasceu nova
Aquele ato, filho do desespero
Trouxe outro triste desterro
Pelo agreste voltou a andar
Com trapos de gente buscando um lar
Um valente chamado severino
Portador de coração adamantino
Luz de brilho forjado na dor
Que traz lágrimas ao cantor
Então canudos surgiu como lenda
Onde os esquecidos encontraram tenda
Fugindo do mundo e do chicote
Do peso do Sol e da morte
Conselheiro era o novo caminho
Pois ninguém seguia sozinho
Uma mão estendida ao irmão
Comunhão, trabalho e união
Um valente chamado severino
Portador de coração adamantino
Luz de brilho forjado na dor
Que traz lágrimas ao cantor
Partilha, irmandade e labor
Deram muitos frutos de valor
A vida tornou-se mais leve
Ao som do martelo que escreve
Um sonho enfim realizado
Um lar seguro e amado
As crianças, antes sem chão
Agora tinham colo e pão
Um valente chamado severino
Portador de coração adamantino
Luz de brilho forjado na dor
Que traz lágrimas ao cantor
Mas sonho nenhum permanece
Enquanto o mal ainda cresce
Do sul vieram armas marchando
A paz e a esperança ceifando
Tiros, ódio e traição certeira
Sangue caindo sobre a poeira
Conselheiro enfim tombou
E o solo fértil se calou
Um valente chamado severino
Portador de coração adamantino
Luz de brilho forjado na dor
Que traz lágrimas ao cantor
Veio a tristeza da noite escura
O valente perdeu na amargura
Fugindo sem rumo, foi vagando
Sentindo a esperança se apagando
Descalço caiu na encruzilhada
Pele ferida, alma maltratada
Acuado na negra escuridão
Quase sem luz no coração
Um valente chamado severino
Portador de coração adamantino
Luz de brilho forjado na dor
Que traz lágrimas ao cantor
Um valente chamado severino
Portador de coração adamantino
Luz de brilho forjado na dor
Que traz lágrimas ao cantor