Subi na Lua cheia
Sorrateiro pela ladeira
Era horrenda a minha fome
Do pão que o diabo come
Lobisomem cruel, solitário
Vi a fiel no campanário
Moça bonita, pele macia
Minha mordida ela sentiria
É Lua cheia, é Lua cheia, é Lua cheia
É o odor que me livra da cadeia
Lobisomem de pelo eriçado
Sem perdão, por Deus abandonado
Não foi difícil a visão
Seu olhar mudou minha decisão
Devorar ou amar a bendita
Amaldiçoar ou salvar a maldita
Lua cheia a brilhar no pano
Eu com o fôlego de um soprano
A cantar amarga canção
Uivo rasgado do pulmão
É Lua cheia, é Lua cheia, é Lua cheia
É o odor que me livra da cadeia
Lobisomem de pelo eriçado
Sem perdão, por Deus abandonado
Amaldiçoado por uma mordida
Veneno cruel em minha ferida
Transformação que me fez gemer
E todos ao redor tremer
É pelo, é garra, é dente, desgraça
Correndo desnorteado pela praça
Rasgando a carne inocente
Cortando e mastigando com os dentes
É Lua cheia, é Lua cheia, é Lua cheia
É o odor que me livra da cadeia
Lobisomem de pelo eriçado
Sem perdão, por Deus abandonado
Já fui gentil, de boas intenções
Hoje devoro carne e tendões
Mas eu a vi de novo parada
Pele de Lua, voz calada
Olhos azuis de névoa gelada
A fera em mim recusava a caçada
Será o decote de sua blusa?
Ou sua beleza que me confusa?
É Lua cheia, é Lua cheia, é Lua cheia
É o odor que me livra da cadeia
Lobisomem de pelo eriçado
Sem perdão, por Deus abandonado
Será o odor de sua boca vermelha
A delicadeza de sua centelha?
Meu coração, que julgava morto
Sentiu o mundo mudar de rosto
Entre o desejo e a fome animal
Entre o instinto e o bem e o mal
Olho a Lua e perco a razão
Ela me chama para a escuridão
É Lua cheia, é Lua cheia, é Lua cheia
É o odor que me livra da cadeia
Lobisomem de pelo eriçado
Sem perdão, por Deus abandonado
É Lua cheia, é Lua cheia, é Lua cheia
É o odor que me livra da cadeia
Lobisomem de pelo eriçado
Sem perdão, por Deus abandonado
É Lua cheia, é Lua cheia, é Lua cheia
É o odor que me livra da cadeia
Lobisomem de pelo eriçado
Sem perdão, por Deus abandonado