O corpo acorda pesado
Não é cansaço
É peso
É o mundo inteiro em cima
Cobrando o meu retrocesso
Mãos que erguem tudo
Mas não seguram o próprio filho
Palavra na garganta
Engolida com o lixo
Não é tristeza
Tristeza tem fim
Isso é existir
Sem saber o porquê de mim
Lançado nesse mundo
Que não me perguntou
Se eu queria chegar
Só chegou
Só chegou
Náusea
O nome que eu dei pra essa dor
Náusea
De existir sem ser autor
Me deram uma vida
Que eu não pedi
Náusea
De ser livre
E não ter saído daqui
Finjo pro meu filho
Que tá tudo resolvido
Por dentro sou entulho
Sou novembro
Sou esquecido
O dinheiro não cobre
A dignidade some
E o demônio ri
Enquanto eu engulo a fome
Não precisa me tentar
Já me vendo por migalha
Já me curvo antes da guerra
Já perco antes da batalha
Mas a lucidez que sobra
É faca que não cansa
Não acredito mais
Em Deus
Em homem
Em esperança
Náusea
O nome que eu dei pra essa dor
Náusea
De existir sem ser autor
Me deram uma vida
Que eu não pedi
Náusea
De ser livre
E não ter saído daqui
Não peço mais explicação
Não espero mais salvação
Engoli tanta promessa
Que meu estômago é prisão
O olhar dos outros me condena
Sem julgamento
Sem tribunal
Existo
E isso é a minha pena
Existo
E isso já é fatal
Eu existo e isso dói
Eu existo e isso dói
Eu existo
E o mundo sabe
E o mundo não faz nada
Eu existo
Eu existo