Hospício Nacional

Abismo Cavado e Medicado

Não perguntaram meu nome
Só escreveram um número
Roubaram minha voz
Vestiram meu silêncio

Aqui o inverno nunca termina
Cobertores são privilégio
A fome aprende meu rosto
Enquanto Deus esquece o prédio

Chamaram de tratamento
Aquilo que era sentença
Eletrochoque pra calar
Toda forma de existência

Louco
Era quem lucrava com a dor

Se a verdade tem paredes
Elas ainda sangram
Milhares entraram vivos
Poucos saíram humanos

Barbacena nunca acabou
Só mudou de endereço
Quando a miséria vira diagnóstico
Toda vida perde o preço

Hospício nacional
Onde a vergonha veste branco
Chamaram isso de ciência
Enquanto cavavam outro barranco

Filhos sem crime
Mães sem pecado
Pobres, negros
Indesejados

Quem amava diferente
Quem falava demais
Quem não tinha sobrenome
Nunca voltou atrás

A morte fazia plantão
Sem precisar de uniforme
A burocracia assinava
Enquanto a cidade dorme

Não foi erro
Não foi excesso

Foi projeto

Cada corpo enterrado
Foi um documento rasgado

Barbacena nunca acabou
Ela respira em cada abandono
Quando a dignidade vale menos
O hospício muda de nome

Nunca mais
Nunca mais
Que a memória seja
A última cela quebrada


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