Herdei do meu pai o silêncio e o cansaço
A mão calejada
O olhar de quem já não tem espaço
Herdei a pobreza
Que ninguém escolhe ter
E a raiva que se acumula
Sem ter onde resolver
Meu avô cavou o abismo
Meu pai foi medicado nele
E eu nasci no fundo
Tentando entender o que é isso
Sartre disse que eu me faço
Mas de onde eu começo
Se a herança que me deram
Já me amarra desde o berço?
Herança do abismo
O que me deram pra carregar
Herança do abismo
A dor que não escolhi herdar
Cavado e medicado
Esse é meu sobrenome
Herança do abismo
Mas eu vou quebrar o ciclo
Não quero passar pro meu filho
O que me passaram
A miséria
O silêncio
As feridas que não saram
Quero cortar a corrente
Que prende minha linhagem
Quero que o abismo pare
Na minha passagem
A existência precede a essência
Então eu me reinvento
Não sou só o que herdei
Sou o que eu construo agora
Condenado a ser livre
Mas a liberdade é minha arma
Vou cavar outro caminho
Nem que seja com as unhas
Herança do abismo
O que me deram pra carregar
Herança do abismo
A dor que não escolhi herdar
Herdei a dor
Mas não vou passar adiante
Herdei o abismo
Mas vou ser a ponte
Herdei o silêncio
Mas eu vou gritar por todos
O ciclo quebra em mim
Eu sou o fim da corrente
Não sou só herança
Não sou só passado
Não sou só o abismo
Sou quem escolhe o que vem depois
Cavado e medicado
Mas ainda de pé
Eu sou o que eu decido ser