Rolo o feed
Até minha mente não pensar
Mil rostos felizes
Que eu não consigo alcançar
Existir virou performance
Virou like
Virou pose
Sartre dizia
O olhar te cria
Hoje o algoritmo te expõe
Me vendem a liberdade
Em formato de stories
Mas a escolha que me deram
Foi entre duas histórias
A de quem consome
Ou a de quem é consumido
No feed do vazio
Eu sou produto
E não conteúdo
Feed do vazio
Me vendem quem eu sou
Feed do vazio
O like virou meu Deus
Existo quando posto
Sumo quando calo
Feed do vazio
E ninguém vê
Que eu estou caindo
Filtro a dor
Edito a crise
Posto o sorriso
Por baixo da imagem perfeita
Tem um abismo
A náusea não cabe
Em legenda de noventa segundos
E a má-fé que eu carrego
Cabe em todos os conteúdos
Condenado a ser livre
Num espaço de dois por quatro
A tela que me liberta
É a grade do meu cárcere
Mil conexões
Nenhum contato
Nenhum abraço
Feed do vazio
Me perco em cada espaço
Scroll
Scroll
Scroll
Mas não encontro nada
Posto
Posto
Posto
Mas ninguém me vê de fato
Existo pra câmera
Mas apago quando paro
Eu sou o feed
Eu sou o vazio
Eu sou o que vocês criaram
Desligo a tela
Mas o vazio continua
Desligo a tela
Mas eu ainda não me encontro
Eu existo fora do feed?