ESPÉCIE EM FALTA

Abismo Cavado e Medicado

Chamamos de humano o que já não é
A empatia foi o primeiro recurso escasso
O dinheiro chegou antes, você sabe como é
Quando o próximo é custo, e não é um laço

O terráqueo que se diz civilizado
Pisou no doente para chegar à frente
E o discurso de união foi pronunciado
Por quem nunca esteve do mesmo lado, somente

O inferno não veio de fora
O inferno eram os outros, e éramos nós
A pandemia só descerrou a aurora
De uma humanidade que vivia em dois

Espécie em falta, de si mesma
Espécie em falta, de compaixão
O dinheiro vem primeiro, e o resto fica
À espera de uma segunda encarnação

Quantos morreram sozinhos, e o mercado abriu
Quantos foram enterrados sem nome nem testemunha
A bolsa subiu, e o chão do cemitério sumiu
Sob o peso de quem nunca vai ser nenhuma

E depois voltamos, e fingimos normalidade
Como se o intervalo fosse só pausa técnica
Não aprendemos nada, só aprendemos a vaidade
De chamar de superação o que foi anestesia

O inferno não veio de fora
O inferno eram os outros, e éramos nós
A pandemia só descerrou a aurora
De uma humanidade que vivia em dois

Espécie em falta, de si mesma
Espécie em falta, de compaixão
O dinheiro vem primeiro, e o resto fica
À espera de uma segunda encarnação

Humanos, somos, humanos?

Ou terráqueos com conta bancária
Que confundem sobreviver com viver
E passam por cima sem olhar
Porque olhar, custa

Nietzsche avisou: Quando o Deus morre
Precisamos criar nossos próprios valores
Mas escolhemos o mercado, e o dinheiro cobre
O que deveríamos ser, mas somos menores

Espécie em falta, de si mesma
Espécie em falta, de compaixão
O dinheiro vem primeiro, e o resto fica
À espera de uma segunda encarnação

Espécie em falta
Espécie em falta


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