Acordo no escuro, o ponto já me espera
Vendo oito horas da vida por uma quantia que nem era
Suficiente pra viver, só o bastante pra voltar
Amanhã de novo, e de novo, sem nunca chegar
Sou número, sou crachá, sou meta, sou função
Existência reduzida a uma planilha de produção
Sartre dizia que eu me invento a cada gesto
Mas que gesto me resta quando vendo o corpo e o resto?
Engrenagem
Giro mas não vou a lugar nenhum
Engrenagem
Me gastam até virar resto e sucata
Trocam minha vida
Por um salário que não chega
Engrenagem
E a máquina nunca se quebra
Me chamam de recurso, humano só no papel
Descartável quando adoeço
Esquecível quando fiel
A produtividade exige
Que eu apague quem eu sou
E no fim do mês
O que sobra mal cobre o que custou
Náusea de vender o tempo que não volta mais
De saber que minha essência virou lucro pros demais
Condenado a ser livre numa jaula com relógio
Livre pra escolher
Entre a fome
E o meu suplício
Engrenagem
Giro mas não vou a lugar nenhum
Engrenagem
Me gastam até virar resto e sucata
Bate o ponto
Me engole a engrenagem
Cumpre a meta
Me esvazia por dentro
Sorri pro chefe
Enquanto morro por dentro
Eu não sou peça
Eu não sou descartável
Paro a máquina
Saio da linha
Recuso o crachá
Eu não sou engrenagem
Sou o que a máquina nunca vai moer
Sou o que sobra
Quando eu digo não