Tudo que conecta, também pode desligar
Com um gesto, com um clique, com silêncio
Ninguém mais aprende a permanecer
Porque permanecer custa, e o custo assusta
As relações escorrem como água entre os dedos
Quanto mais apertas, mais rápido se vai
Ninguém quer profundidade, quer segredos
Rápidos, sem raízes, sem deixar rastro aí
A intimidade tem prazo de validade
O vínculo incomoda, o compromisso pesa
Substituímos amor por disponibilidade
E chamamos de conexão o que é apenas empresa
Sem forma fixa, sem estrutura, sem centro
Nos moldamos ao que o outro quer que sejamos
E quando já não serve, já foi, nem dentro
Fica o rastro do que um dia realmente fomos
Água que escorre, não deixa marca
Água que escorre, não tem raiz
Somos líquidos, e a solidão embarca
No mesmo barco que nos fez assim
O consumidor de relacionamentos descarta
Quando o modelo novo aparece na vitrine
A lealdade é fraqueza, o afeto se aparta
De qualquer coisa que não se otimize
E as redes multiplicam o contato
Mas multiplicar contato não é pertencer
Temos milhares de rostos, nenhum trato
Que resista à primeira vez que dói de ver
Sem forma fixa, sem estrutura, sem centro
Nos moldamos ao que o outro quer que sejamos
E quando já não serve, já foi, nem dentro
Fica o rastro do que um dia realmente fomos
Água que escorre, não deixa marca
Água que escorre, não tem raiz
Somos líquidos, e a solidão embarca
No mesmo barco que nos fez assim
Descartável, descartável, descartável
Foste substituído antes de terminar
Não porque não vales, porque o sistema
Nunca aprendeu o que é permanecer
Mas água também pode encher um oceano
Pode atravessar rocha, pode nutrir
O problema não é ser fluido, é ser vão
É nunca ter coragem de construir
Água que escorre, não deixa marca
Água que escorre, não tem raiz
Somos líquidos, e a solidão embarca
No mesmo barco que nos fez assim
Água que escorre
Não deixa marca
Não tem raiz