A fumaça sobe como se fosse prece
E o céu engole o que o machado fez
Não há perdão no vento que arrefece
Só a conta que chega mais de uma vez
Cortamos o que não era nosso cortar
Chamamos de progresso o que é cicatriz
A terra sangra e não para de sangrar
E fingimos que isso nunca nos pertence, diz
Que veio do destino, que é vontade maior
Que o mercado regula, que o técnico resolve
Mas toda enchente que inunda, toda dor
É o reflexo de um espelho que ninguém envolve
Não existe natureza lá fora
Você é a natureza, é parte dela agora
E cada árvore queimada queima em você
Cada rio morto é um vaso que não vai crescer
A terra não é verde, é o que destruímos
A terra não tem fronteira, é o que vendemos
O verde e azul era tudo o que ignoramos
E o inferno que colhemos, plantamos
A enchente não veio do nada, veio de nós
Do concreto que sufoca onde deveria brotar
A natureza não é vítima, somos nós
Que escolhemos destruir em vez de habitar
Má-fé de dizer que é natural
Quando foi mão, foi escolha, foi lucro fácil
A crise não veio do cosmos, veio do jornal
Da caneta assinada sobre o mapa frágil
Colapso, colapso, colapso
Não foi o clima que mudou
Foi o que escolhemos ser
O vento não tem culpa
O vento só obedeceu
Tudo o que existe é uma coisa só
E nós queimamos parte de nós mesmos
Não há fuga na tecnologia
Não há fuga no discurso, somos o problema
A terra não é verde, é o que destruímos
A terra não tem fronteira, é o que vendemos
O verde e azul era tudo o que ignoramos
E o inferno que colhemos, plantamos