Na sala branca, o riso é de marfim
Tem flor de plástico no jardim
O dono da mesa brinda em cristal
Mas por dentro cheira a temporal
Tem manga doce no prato de prata
Tem faca limpa, promessa barata
Quem come o mundo sem dividir
Pede silêncio pra gente sorrir
Mas eu vi cupim na moldura dourada
Vi santa chorando na escadaria
Vi a ferrugem beijando a espada
Vi a mentira vestida de dia
Não vão calar meu coração
Nem pôr cal viva na canção
Se a casa grande quiser me apagar
Eu viro raiz pra rachar o lugar
Não vão vender minha manhã
Por um perfume de maçã
Quem planta medo pra colher poder
Vai ver o povo florescer
Na varanda, o senhor tão distinto
Passa açúcar no próprio instinto
Fala de ordem, de Deus e família
Mas tranca o Sol dentro da mobília
Tem passarinho com asa cortada
Cantando baixo na madrugada
Tem tanta gente virando sal
Pra temperar o jantar principal
Mas eu vi limo no mármore frio
Vi ouro mofando no confessionário
Vi o palácio tremer no arrepio
De um tambor pequeno, quase ordinário
Não vão calar meu coração
Nem pôr cal viva na canção
Se a casa grande quiser me apagar
Eu viro raiz pra rachar o lugar
Não vão vender minha manhã
Por um perfume de maçã
Quem planta medo pra colher poder
Vai ver o povo florescer
Ai, sinhô, cuidado com a fruta madura
Ela cai sozinha quando a noite apura
Ai, sinhô, cuidado com a pintura
Por baixo do branco tem outra escritura
E quem sorri com dente de ouro
Também apodrece no próprio tesouro
E quem constrói gaiola no céu
Um dia acorda sem chão, sem véu
Não vão calar meu coração
Nem pôr cal viva na canção
Se a casa grande quiser me apagar
Eu viro raiz pra rachar o lugar
Não vão comprar minha manhã
Nem minha boca, nem minha lã
Quem planta medo pra colher poder
Vai ver o povo florescer
No jardim de cal nasceu capim
No prato de prata nasceu jasmim
E a voz que enterraram sem oração
Voltou cantando pelo porão