Cresci no Capão Redondo
Onde a polícia chega antes da ambulância
Minha mãe me ensinou a voltar vivo
O mundo me ensinou o porquê
Cresci ouvindo profecia disfarçada de conselho
Vigia esse menino, como se eu fosse erro no espelho
Antes da tabuada, eu já sabia o que era rótulo
Minha cor virava código, meu cabelo era o óbvio
Primo chamando de bandido em tom recreativo
Racismo doméstico também deixa hematoma invisível
Disseram pra minha mãe que eu tinha tendência
Tendência era o país repetir a própria violência
No livro eu só aparecia na corrente
Nunca no trono nunca inteligente
Mostravam chibata mas não mostravam império
Ensinaram a dor, mas esconderam o critério
Rainha africana virava piada na sala
É sua irmã? É?
Ignorância batendo palma
Se minha história começa no navio negreiro
Por que a sua começa só quando vira herdeiro?
Primeiro suspeito, mesmo sendo correto
Primeiro suspeito, antes mesmo do afeto
Se a pele é sentença, quem é o juiz?
Eu sobrevivi onde o sistema quis meu fim
Primeiro suspeito, mas nunca mais calado
Cada verso é protesto contra o estado
Se não virei estatística, foi resistência
Eu sou a falha viva da sua profecia violenta
No mercado, dois caixas, dois caminhos
Minha irmã e meu cunhado passam por trás, eu na frente sozinho
Olhar de scanner lendo minha melanina
O seu também tá pago? Silêncio pesado, antes da disciplina
No trem a mina sorri e pergunta da erva
Meu dread virou prova minha paz virou reserva
Quando fiz trança disseram: Não vai ter futuro
Virei gerente, supervisor, discurso caiu do muro
Pediam o chefe, olhando pro branco da sala
Eu de gravata mas a dúvida falava: Nossa, é ele?
Surpresa no tom
Competência preta sempre soa exceção
Criança não nasce racista, aprende no jantar
Me chamou de macaco fantasiado de mago no parque escolar
Outra perguntou se eu morava em senzala
Século vinte e um, mas a mente ainda acorrentada
Primeiro, mas nunca mais calado
Cada verso é protesto contra o estado
Se não virei estatística, foi resistência
Eu sou a falha viva da sua profecia violenta
Meu filho nasceu claro, eu no posto de saúde
Olhar de desconfiança, vestido de virtude
Como se eu fosse perigo segurando o amor
Mas quando ele diz pai, desarmou o opressor
Minha mãe me avisou sobre droga e pressão
Sobre chamarem de fraco se eu dissesse não
Eu disse não pro crime, não pro veneno
Sobreviver preto já é ato extremo
Não virei manchete, não virei cela
Não virei número nem estatística da favela
Cada não vai dar certo virou combustível
Eu sou o improvável que ficou invencível
Se o sistema me testa, eu viro argumento
Se tentam me apagar, eu viro documento
Não é só sobre mim, é sobre estrutura
Silêncio de aliado também é postura
Se você vê racismo e finge não ver
Seu silêncio escolheu lado sem perceber
Eu não pedi privilégio, só equidade
Mas enquanto isso não vem, eu faço história na adversidade
Eu também sou o primeiro suspeito
Foi só engano
Foi só um caso isolado
No mercado foi igual
É pra sua segurança, senhor
Na escola também
Pois você não parece preto
Não vão calar nossas vozes
Não é vitimismo
É sobrevivência
É sistema
É estrutura