Saboreio os destroços da ruína
Onde nada se cura e nada cresce
Desolação se torna causa minha
As manchas do tempo desaparecem
Como tinta nas cerdas de um pincel
Por onde passo, conduzo sua cor
Preenche-me sua ausência cruel
Malgrado a morte, entono o seu louvor
Dentro do mar de seu sangue
Encontro uma gota de eternidade
Nada mais é como antes
Em cada sonho que de mim evade
Quando a obra da dor for concluída
Toda ferida cicatrizará
Dentro de mim fertilizo sua vida
Onde a tormenta não pode alcançar
Como Sol a se gravar na retina
Imagem fatal que a noite recebe
Ante o pesar que o decesso rumina
Todas as coisas se tornam estéreis
Do demônio ao lugar santo
E do anjo ao lar profano
Fecho os olhos e o mundo vai abaixo
Luze todo mal que fiz a mim mesmo
Afogamo-nos num próprio naufrágio
Pereço em partes, nunca por inteiro