Carta Aberta

Meidax

Escrevo com os dedos cobertos de tremor
Enquanto a madrugada mastiga a estação
Há um velho trem apitando na distância
E um cachorro uiva para a própria solidão

Nasci com os bolsos cheios de novembro
E um inverno pregado no coração
Vi jardins morrerem antes das flores
E aprendi cedo o gosto do chão

As paredes da infância eram estreitas
E o silêncio era mais alto que trovão
Minha sombra cresceu entre rachaduras
E fez do abandono uma religião

Se alguém encontrar estas palavras
Não procure entender a escuridão
Algumas velas nascem para o vento
E alguns rios jamais encontram o mar

Se alguém perguntar por meu nome
Diga apenas que segui a neblina
Pois há estrelas cansadas da noite
E canções cansadas da própria sina

Colecionei cicatrizes invisíveis
Como quem junta moedas no balcão
Sorri em funerais de esperanças
Brindei sozinho à desilusão

A cidade me ofereceu seus dentes
E eu beijei cada maldição
Homens de gravata venderam milagres
Mas nenhum comprou minha aflição

Carreguei cruzes sem igreja
Conversei com fantasmas do porão
E nas mesas onde todos festejavam
Eu dançava com a contramão

A garrafa vazia ainda me conhece
A Lua torta ainda sabe quem sou
Há corvos pousados nos postes
Esperando aquilo que restou

Hey!

As ferraduras enferrujaram
Os cavalos desapareceram
E os sinos que ouvi na juventude
Há muito tempo emudeceram

Perdoem meus passos tortos
E as flores que nunca reguei
Há tempestades que nascem sem aviso
E outras que jamais abandonei

Guardei retratos dentro das gavetas
E nomes que nunca pronunciei
Mas algumas cartas não pedem resposta
E alguns adeuses já nascem prontos

Agora a chuva bate na janela
Como velha amiga do sertão
E o relógio cansado na parede
Já não exige explicação

Deixo a mesa posta para ninguém
E o rádio tocando baixinho no salão
Talvez amanhã encontrem silêncio
Onde durante anos houve trovão

Se alguém encontrar estas palavras
Não procure culpar a escuridão
Existem caminhos feitos de fumaça
Que se perdem sem direção

Se alguém perguntar por meu nome
Digam que fui atrás da tempestade
Porque há pássaros cansados das asas
E há homens cansados da saudade

A chuva enfim lavou meus sapatos
O velho trem partiu sem demora
As luzes da varanda permaneceram acesas
E sobre a mesa
Uma carta
Ainda aberta


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