Milhões de passos, ruas de renome
As luzes incomodam, o corpo consome
Um mar humano se arrasta e cruza
Cada olhar uma forma confusa
Relógios marcam o mesmo atraso
O tempo corre em seu ocaso
Vidas se misturam, mas não se sabem
Rostos diferentes antes que se acabem
O calçadão agoniza, ambiente servil
Devorador de sonhos, cospe o civil
O oxigênio é denso, quase de metal
Cada respiração se interrompe no sinal
Vivemos juntos, mas sem direção
Cada olhar é uma contradição
Milhões se cruzam, ninguém se vê
A cidade digere o que quer ser
Nos altos prédios, de mármore e tédio
Há inúmeros corações sob assédio
Ninguém conhece quem lhe acena
A cidade é fria, nenhuma alma plena
Os sons se misturam, viram tormenta
Ninguém se ouve, ninguém se atenta
Mas algo irrompe no meio do ruído
Uma grande vontade de ter sentido
Um homem para e o resto passa
A pressa é culto que o dia amassa
E mesmo assim, nesse caos voraz
A esperança ainda se mantém capaz
Vivemos juntos, mas sem direção
Cada olhar é uma contradição
Milhões se cruzam, ninguém se vê
A cidade digere o que quer ser
De fazer nascer, sob cimento
Um lampejo, um sentimento
Um encontro breve, um afeto humano
Nesse grande coração metropolitano
A ambição anda de terno e pasta
Vendendo sonhos e cobrando casta
O pobre ali dormindo sob letreiros
Abraça a sujeira, a chuva e os travesseiros
Lá no asfalto úmido jazem promessas
Feitas por bocas que o tempo apressa
Um corpo cai e ninguém repara
A urbe rumina todos, e nunca para
Vivemos juntos, mas sem direção
Cada olhar é uma contradição
Milhões se cruzam, ninguém se vê
A cidade digere o que quer ser
Vivemos juntos, mas sem direção
Cada olhar é uma contradição
Milhões se cruzam, ninguém se vê
A cidade digere o que quer ser