Na infância, havia ratos sob a tábua carcomida
E um pai de hálito ardente devastando-lhe a vida
Cada prato era um litígio, cada noite uma cilada
A casa, um mausoléu de infância violentada
A mãe, entre hematomas e rosários de fadiga
Costurava o próprio pranto na penumbra inimiga
E a menina, muito cedo, aprendeu sem alegoria
Que há criaturas sorrindo com punhais de cortesia
Vieram homens viscosos de gravata e devoção
Com moedas nos bolsos e enxôfre no coração
Tomaram-lhe a adolescência num quarto isolado
Onde até Cristo na parede parecia estar vendado
Senhora da madrugada
Hoje ela risca fumaça na esquina do cemitério
E transforma desespero num perfume grave e etéreo
Seu vestido tem a noite das mulheres sem perdão
Mas há lírios invisíveis florescendo em sua mão
Fugiu por vielas turvas sob garoas de ferragem
Dormindo entre cães magros e jornais de estiagem
Na sarjeta repartia pão mofado e cobertores
Mesmo tendo nos próprios ossos um deserto de dores
Havia mendigos cegos que chamavam seu nome
E crianças sem sapato, raquíticas da mesma fome
Ela dava o que não tinha, cigarro, abraço, migalha
Como santa clandestina sob a fuligem da batalha
Às vezes ria sozinha nos viadutos da cidade
Com batom barato e frio disfarçando a tempestade
Mas depois, diante da Lua e das vitrines apagadas
Chorava como quem guarda catedrais abandonadas
Senhora da madrugada
Hoje ela risca fumaça na esquina do cemitério
E transforma desespero num perfume grave e etéreo
Seu vestido tem a noite das mulheres sem perdão
Mas há lírios invisíveis florescendo em sua mão
Numa madrugada ríspida de junho sem clemência
Quatro homens a cercaram com navalhas e indigência
O asfalto bebeu seu sangue com garrafas partidas
E a aurora nasceu doente sobre as avenidas
Agora vem nos terreiros entre rosas e aguardente
Com gargalhada de brasa e olhar antigo, penitente
Ampara moças feridas por amantes e violência
E ensina às almas partidas o difícil da existência
Quando baixa, até o luar modifica a travessia
Pois existe nela um resto de miséria e poesia
E quem sente sua presença junto às velas da gira
Ouve as ruas soluçando na chegada da pomba-gira
Senhora da madrugada
Hoje ela risca fumaça na esquina do cemitério
E transforma desespero num perfume grave e etéreo
Seu vestido tem a noite das mulheres sem perdão
Mas há lírios invisíveis florescendo em sua mão