A flor abria cedo
Tão breve quanto a luz
Vestia branco o galho
Depois já não seduz
Passavam lentes finas
Tratados sobre o altar
Ninguém ouvia a planta
Ninguém a viu falar
Foi um menino anônimo
Dotado de sensível visão
Que leu nas nervuras
A íntima inscrição
Quem há de lembrar
A mão que fez nascer
O fruto que o mundo
Aprendeu a colher?
Se o aroma ficou
Também ficou a dor
Roubaram o nome
Não puderam roubar a flor
Tomou um ramo seco
Tão simples quanto o pão
E uniu dois destinos
Na mesma dedução
A flor guardou o fruto
O fruto fez o mar
Navios descobriram
Outro motivo para navegar
Mercados floresceram
Mudou-se a plantação
O mundo inteiro adoça
Com aquela solução
Quem há de lembrar
A mão que fez nascer
O fruto que o mundo
Aprendeu a colher?
Se o aroma ficou
Também ficou a dor
Roubaram o nome
Não puderam roubar a flor
Mas quem contou seu nome
Na mesa do poder?
Quem dividiu com ele
O gosto de vencer?
Ficaram com a colheita
Com a fama e o valor
Deixaram ao menino
Somente o próprio labor
Edmond, ninguém escuta
O peso dessa voz
Seu saber continua
Cantando entre os cipós
Edmond Albius
Edmond Albius
Em cada fava escura
Repousa um velho ardil
O mundo herdou o fruto
Não soube de quem o viu
Baunilha no vinho
Baunilha no pão
O mundo adoçando
A mesma invenção
Mas quem reconhece?
Quem mudou seu destino?
O fruto tem dono
A flor tem um menino
Porque o saber não nasce
Da seda ou da luz solar
Às vezes muda o século
Quem aprende a reparar
E a mão que nada tinha
Sem grande saber e sem metal
Abriu para o planeta
O perfume vegetal