Meu avô distinguia sementes
Pela gluma, pela arista
Nunca abriu tratados régios
Desmascarava o rentista
Via tulhas descomunais
Via a eira, via o celeiro
Mas nossa mesa permanecia
Mais deserta que o terreiro
O tabelião, sesmarias
O agrimensor, demarcação
Toda gleba tinha registro
Nunca a nossa privação
Quando um forno conserva brasas
Enquanto a infância vivencia aflição
Não culpem a providência
Houve chancela e arrecadação
Quando um estuário despacha trigo
Enquanto o lavrador jejua
Não culpem o firmamento
Foi a usura que perpetua
Conheci um velho lavrador
Intérprete da ramagem
Lia o pulso de cada leiva
Como ortopedista lê cartilagem
Reconhecia cada espiga
Pelo brilho, pelo tegumento
Conhecia todas as chuvas
Jamais provou contentamento
Sabia o instante da colheita
Sem astrolábio ou calendário
Morreu deixando por herança
Somente seus trapos no inventário
Quando um forno conserva brasas
Enquanto a infância vivencia aflição
Não culpem a providência
Houve chancela e arrecadação
Quando um estuário despacha trigo
Enquanto o lavrador jejua
Não culpem o firmamento
Foi a usura que perpetua
Os jornais diziam: Escassez prevista
Os entrepostos diziam: Inflação
Os gabinetes diziam: Contingência
O pobre suplicava por uma refeição
Nenhum acordão trouxe ceia
Nenhum despacho, provisão
Toda sentença foi perfeita
Também perfeita a exploração
A velhice reclama o tempo
O caruncho reclama o grão
A cobiça registra escritura
Contra quem vive da plantação
Há espantalhos nas searas
Jamais vigiam o explorador
O saque veste caligrafia
E rouba o pobre agricultor
Quando um forno conserva brasas
Enquanto a infância vivencia aflição
Não culpem a providência
Houve chancela e arrecadação
Quando um estuário despacha trigo
Enquanto o lavrador jejua
Não culpem o firmamento
Foi a usura que perpetua