Espantalhos Cegos

Astrikos Katoikos

Meu avô distinguia sementes
Pela gluma, pela arista
Nunca abriu tratados régios
Desmascarava o rentista

Via tulhas descomunais
Via a eira, via o celeiro
Mas nossa mesa permanecia
Mais deserta que o terreiro

O tabelião, sesmarias
O agrimensor, demarcação
Toda gleba tinha registro
Nunca a nossa privação

Quando um forno conserva brasas
Enquanto a infância vivencia aflição
Não culpem a providência
Houve chancela e arrecadação

Quando um estuário despacha trigo
Enquanto o lavrador jejua
Não culpem o firmamento
Foi a usura que perpetua

Conheci um velho lavrador
Intérprete da ramagem
Lia o pulso de cada leiva
Como ortopedista lê cartilagem

Reconhecia cada espiga
Pelo brilho, pelo tegumento
Conhecia todas as chuvas
Jamais provou contentamento

Sabia o instante da colheita
Sem astrolábio ou calendário
Morreu deixando por herança
Somente seus trapos no inventário

Quando um forno conserva brasas
Enquanto a infância vivencia aflição
Não culpem a providência
Houve chancela e arrecadação

Quando um estuário despacha trigo
Enquanto o lavrador jejua
Não culpem o firmamento
Foi a usura que perpetua

Os jornais diziam: Escassez prevista
Os entrepostos diziam: Inflação
Os gabinetes diziam: Contingência
O pobre suplicava por uma refeição

Nenhum acordão trouxe ceia
Nenhum despacho, provisão
Toda sentença foi perfeita
Também perfeita a exploração

A velhice reclama o tempo
O caruncho reclama o grão
A cobiça registra escritura
Contra quem vive da plantação

Há espantalhos nas searas
Jamais vigiam o explorador
O saque veste caligrafia
E rouba o pobre agricultor

Quando um forno conserva brasas
Enquanto a infância vivencia aflição
Não culpem a providência
Houve chancela e arrecadação

Quando um estuário despacha trigo
Enquanto o lavrador jejua
Não culpem o firmamento
Foi a usura que perpetua


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