Na caatinga, o Sol tinha garras de desventura
E a fome roía crianças na extensão da secura
Ele nasceu entre ossadas, mandacarús e poeira
Vendo a morte pôr a mesa na miséria brasileira
A mãe fervia água turva com pedras e desespero
O pai bebia cachaça para esquecer o paradeiro
Cabras magras, olhos fundos, rezas feitas sem igreja
E urubus desenhando círculos sobre a pele sertaneja
Quando menino, furtava rapadura nos mercados
Apanhando dos soldados e dos homens engomados
Mas dividia o que tinha com velhas e retirantes
Como quem já compreendesse o idioma dos errantes
Então surgiu o Conselheiro, barba, sujeira e profecia
Arrastando multidões pela rachada Bahia
E ele foi para Canudos sob um céu de epidemia
Vendo pobres construírem uma espécie de utopia
Hoje ele risca o chão nas encruzilhadas da aflição
Com gargalhadas de charuto e punhais de proteção
Sua cartola ainda guarda retirantes sem destino
Feito um santo maldito do sertão nordestino
Lá ouviu sermões antigos contra a República fria
Contra impostos e fuzis da recente tirania
Mas depois vieram tropas como cães de mortandade
Incendiando casas tortas e ofendendo a humanidade
Canhões abriram crateras entre rezas e gemidos
O sangue virou um barro de cadáveres vencidos
Ele fugiu entre espinhos, vísceras, pólvora e poeira
Com a imagem de Antônio Conselheiro ardendo inteira
Na cidade fez-se bruto, com faca, jogo e contrabando
Dormindo atrás dos cortiços e dos portos fumegando
Muitas vezes lutou com homens por um gole e por um prato
Pois a fome torna o peito semelhante ao desacato
Havia nele um incêndio de vergonha e violência
Uma sede sem repouso devastando a consciência
E embora risse nas tavernas entre a revolta e o aguardente
Carregava Canudos carbonizado eternamente
Hoje ele risca o chão nas encruzilhadas da aflição
Com gargalhadas de charuto e punhais de proteção
Sua cartola ainda guarda retirantes sem destino
Feito um santo maldito do sertão nordestino
Morreu num beco imundo por ódio e dívida escura
Com facadas lhe abrindo flores negras na nervura
Ninguém velou seu cadáver sob a chuva dos lampiões
Só os ratos e o apito funerário dos vagões
Agora baixa nos terreiros com charutos e fumaça
Com capa escura, olhar duro e uma estranha velha graça
Ampara homens derrotados pelos descaminhos e pelo crime
Pois conhece cada umbral onde a miséria redime
Quando aparece no terreiro, até o couro do tambor delira
Como se Canudos inteira ressurgisse na gira
E quem escuta seu ponto na madrugada mais fria
Ouve o sertão soluçando dentro da alta magia
Hoje ele risca o chão nas encruzilhadas da aflição
Com gargalhadas de charuto e punhais de proteção
Sua cartola ainda guarda retirantes sem destino
Feito um santo maldito do sertão nordestino
Sempre com muita sabedoria e calma
Saravá senhor Tranca-Ruas das Almas