Lá no alto da colina
Havia um homem de retidão
Seu tesouro era pequeno
Um rebanho e seu coração
Cada cabra tinha história
Cada vaca era de estimação
Veio a bandidagem pela fronteira
Veio a fumaça pelo ar
Bandoleiros do deserto
Prometiam saquear
Fugitivos de Sancho Pança
Nada queriam poupar
Antônio, salva esta gente
Antônio, vem acudir
Se cair nossa morada
Nada resta por aqui
Toda a vila suplicava
Só você pode acudir
Sem cobrar uma moeda
Nem pensou no próprio bem
Deu as cabras do curral
Deu todo seu gado também
Ficou pobre numa tarde
Mas não viu gente ir pro além
Os invasores aceitaram
O resgate oferecido
Foram embora pela estrada
Sem um golpe desferido
Cada casa permaneceu
Sobre o solo protegido
A cidade fez promessa
De jamais o esquecer
Jurou festa em sua honra
Ao primeiro entardecer
Mas promessas, quando morrem
Quase ninguém quer reconhecer
Foi Antônio quem salvou
Foi Antônio quem perdeu
Mas a glória foi tão breve
Quanto a fumaça que se deu
Toda palma recebida
Com o tempo emudeceu
Já não havia vaca alguma
Nem cabrito no quintal
Seu celeiro permanecia
Num vazio desigual
Quem salvou toda a cidade
Conheceu penúria ao final
É triste, se escuta pela feira
Foi dever que ele cumpriu
Outro diz: Não fez nada demais
Outro sequer o viu
Quem não paga a gratidão
Há muito já se traiu
Não atirem em Antônio
Foi Antônio quem doou
Cada pedra que lhe lançam
Sobre todos já pesou
Uma vila permanece
Porque um homem se acabou
Quando a Lua beija os montes
E o vento percorre o vale
Ainda contam sua história
Sem que a memória se cale
Há cidades que se salvam
Mas sua alma já não vale