A casa paterna oferecia conforto
Tapetes espessos, cristal e brasões
Ele preferiu corredores incertos
Onde o pensamento desconhece portões
O mundo dizia: Aceite a herança
Respondeu apenas mudando o caminho
Há livros que pesam mais que fortunas
Há rumos que nascem quando o sentido é sozinho
As dunas apagavam pegadas ao vento
Muitas íbis alegravam o calor matinal
Acima, um céu sem testemunhas humanas
A escrita surgia com rigor visceral
Maat conservava a pena suspensa
Thoth acompanhava o curso da tinta
Cada sentença exigia perfeição
Qualquer excesso perdia a medida
Nenhuma corrente decide o destino
Há um vigor que fabrica o querer
A vontade madura dispensa exibição
Aprende com o próprio viver
O juiz procura culpados
O sábio procura clareza
Bem no meio deles existe um abismo
Chamado natureza
Aleister Crowley
Montanhas acolhem espíritos ásperos
Rochedos ignoram reputação
Ali cada fôlego expressa seu ritmo
Livre do teatro da aprovação
Vieram retratos e rumores
Ficaram volumes quase esquecidos
Esperando leitores capazes de compreender
Aquilo que esnobou os consentidos
Toda época escolhe um adversário
Cada geração inventa um temor
Mesmo assim seus livros sobrevivem
Como estandartes de impressionante valor
A magia não pesa a riqueza
Pesa aquilo que cada vida fez
Quando o coração recusa disfarces
A balança encontra lucidez
Depois do mofo dos calendários
Depois da estupidez da opinião
Ficou somente a existência
Que ninguém compreende com exatidão
Aleister Crowley