Que lenço usas e dir-te-ei quem és!
Assim dizia o velho no tempo da guerra
Hoje, graças a Deus, vivemos em tempos de paz
Mas o lenço segue firme, no peito quem encerra
O lugar mais nobre da pilcha, da nossa terra
Viver em terra de missão, de cruz jesuíta
É melhor do que sonhar, é destino que se herda
Não basta se dizer gaúcho da boca pra fora
Tem que olhar pra dentro da alma e ver se merece
Se merece esse luxo sagrado
De um povo que morreu por causa nobre
Que não se entregou pra exploração de governo
Nossas raízes, tchê, estão longe de ter fim
Somos gaúchos, e isso se explica simples assim
Isso não é moda, não é pose, é paixão
É tradição, é herança de avô pra neto
É desse jeito que trago cravado
Aqui dentro do coração
Desde guri eu aprendi, olhando o pano vermelho
Aquele lenço encarnado, cor de sangue no peito
É por ele que me ajoelho no pampa em respeito
É por essa causa velha que até hoje eu padeço
Que a morte, essa que eu não conheço e não temo
De tudo que acredito não me deixe esquecido
Que não me tape os ouvidos, que não me cale a boca
Porque metade de mim é o grito que dou pro mundo
A outra metade é silêncio, bem lá no meu fundo
E que essa dor que me corrói por dentro, esse anseio
Sirva de inspiração pro meu verso campeiro
Pra que um dia a querência me veja recompensado
Porque metade de mim é o que penso, calado e sereno
Mas a outra metade, tchê, a outra metade é um vulcão!
É vulcão, é vulcão que carrego no peito gaúcho